“Habemus Papam”

Costa Assunção, escritor e advogado.

9 de maio de 2025

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Costa Assunção, escritor e advogado.
Costa Assunção, escritor e advogado.

O cardeal Robert Francis Prevost Martinez, agora Papa Leão XIV, sequer estava entre os dez favoritos ao papado, segundo listas constantes de conhecidos noticiosos da internet, um deles, o UOL, considerado por muitos o maior portal de notícias da América Latina >  https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/04/27/conclave-conheca-os-cardeais-considerados-favoritos-ao-cargo-de-papa.htm  >. Vemos que os especialistas do Vaticano se enganaram quanto a essa escolha. 

Mas os Estados Unidos e a América Latina lucram com a escolha: ele nasceu em Chicago, Estado de Illinois, nos EUA, a 14 de setembro de 1955; e, como sacerdote e bispo (foi nomeado bispo de Chiclayo, cidade do Peru, em 2015), morou muitos anos no Peru e consta ter cidadania peruana.

Dizem as notícias que o novo Sumo Pontífice é progressista, entretanto, depõem contra ele acusações de fazer vistas grossas sobre a conduta indigna de alguns sacerdotes pertencentes à sua circunscrição eclesiástica. Dirigia a Ordem de Santo Agostinho, na cidade de Chicago, quando protegeu, a partir de 2000, o padre James Ray, acusado de abusar de menores, o qual havia sofrido restrições da Igreja, em 1991, mas terminou recebendo uma autorização de Robert Prevost para morar no Mosteiro St. John Stone da Ordem dos Agostinhos, tendo, ali nas proximidades, uma escola primária católica frequentada por crianças, fato que o dirigente do Convento, muito criticado na época, não percebeu ser inconveniente ao permitir que o padre abusador de menores residisse naquele local.

O jornal “Chicago Sun Times” relatou o caso do padre pedófilo em 2021, com base em documentos tornados públicos pela Igreja em 2014  > https://chicago.suntimes.com/2021/2/26/22302129/catholics-priest-child-sex-abuse-st-john-friary-james-ray-richard-mcgrath-hyde-park-augustinians>. Curioso constatar, anos depois, nessa data da eleição que conduz Robert Prevost ao posto máximo da Igreja Católica, que o mesmo periódico de Chicago continue chamando a atenção da comunidade católica do mundo inteiro, em manchete de primeira página, para os abusos sexuais registrados na Ordem religiosa dos Agostinianos, agora já há mais de uma década, sem que a Igreja adote uma posição de transparência em face dos abusos > https://chicago.suntimes.com/the-watchdogs/2025/05/08/pope-leo-cardinal-robert-prevost-augustinians-chicago> .

O então governante do Vaticano parece não se ter dado conta do tratamento improvidente de Robert Prevost dispensado ao caso do padre James Ray e outros divulgados pela mídia, e assim o elevou a cardeal em 30 de setembro de 2023. E logo tornou-se um Prefeito do Dicastério da Cúria Romana: dirigia um departamento da administração da Igreja Católica incumbido de avaliar e recomendar candidatos para o exercício do episcopado em todo o mundo. Importantíssima, portanto, a função que o Cardeal exercia na Cúria.

Sumo Pontífice chega ao posto mais alto da carreira eclesiástica sendo alvo de muitas críticas por parte de defensores dos sobreviventes de abusos do Clero Católico, no que diz respeito à maneira como lidou, sem nunca tomar medidas enérgicas, contra alegados casos de abusos sexuais quando esteve na liderança da Ordem de Santo Agostinho e no Peru.

Tem 69 anos, é o 267° Papa da Igreja Católica. A julgar pela falta de medidas enérgicas para punir pedófilos na Igreja Católica, dificilmente será um grande Papa e tampouco será um continuador da obra magnífica de Leão XIII, seu antecessor no nome pontifício, cujo papado durou 25 anos (1878-1903). 

Leão XIII, que viveu 93 anos, foi autor da famosa Encíclica “Rerum Novarum”; também é reconhecido como o Sumo Pontífice que deu início às obras de reforma social na Igreja Católica.

Ainda sacerdote, era chamado de Raffaele Luigi Pecci, tendo sido nomeado pelo Papa Gregório XVI, em 1837, como Administrador Provincial de Benevento, a menor das províncias papais, na qual fez uma notável administração ao prender o aristocrata mais poderoso de Benevento. E ainda cuidou da economia daquela Província e fez uma reforma tributária para estimular o comércio com as províncias vizinhas.

Pecci foi um dos primeiros sacerdotes da Igreja Católica a lutar contra a corrupção. Chegou a confiscar pães de uma padaria que vendia o produto abaixo do peso prescrito em libras, na cidade de Perugia (ITA), onde teve um ministério. O pão confiscado terminou sendo distribuído aos pobres.

Bem antes de ser nomeado Cardeal, Pecci já era famoso pela sua intensa atividade social. Muito caridoso, fundou abrigos para meninos e meninas; fundou filiais do Banco Monti di Pietà e favoreceu os pobres com empréstimos a juros baixos; criou cozinhas de sopas, que eram administradas pelos capuchinhos.

Foi um dos organizadores do Concílio Vaticano I, em 8 de dezembro de 1869.

Foi eleito Papa em 18 de fevereiro de 1878, na terceira votação, e um dos grandes Papas da história, talvez o maior. Incentivou o entendimento entre a Igreja e o mundo moderno e reafirmou a doutrina da Escolástica: ciência e religião coexistem.

Primeiro Papa a ser filmado por uma câmera de cinema, era um grande diplomata e melhorou as relações do Vaticano com o Império Russo, Prússia, Império Alemão, França, Grã Bretanha e Irlanda.

Semi vegetariano, atribuía sua longevidade ao pouco uso de carnes e ao consumo de ovos, leite e vegetais.

Publicou cartas e encíclicas que tratam de questões fundamentais sobre casamento, família, Estado e sociedade.

Adepto do tomismo, usou de inteligência e prestígio conquistado ao longo do seu pontificado para fazer prosperar a doutrina baseada nos ensinamentos de São Tomás de Aquino, os quais passaram a ter caráter normativo para treinamento de padres e até na educação de leigos nas universidades.

Leão XIII abriu a Biblioteca do Vaticano, antes mantida indisponível aos estudiosos, e promoveu um estudo científico de grande valia sobre a história do Papado, obra confiada ao historiador alemão Ludwig von Pastor (1854-1928). Este, um erudito professor de história moderna, escreveu, com imparcialidade e franqueza, após meticulosa análise de documentos originais,  a “History of the Popes , livro cujo conteúdo abrange o pontificado de 56 papas, desde Clemente V (1305-1314) até Pio VI (1775-1799). Consta que Ludwig escreveu dezesseis volumes dessa obra considerada clássica, tendo dado início à sua publicação em 1886; em 1930 foi feita a publicação póstuma do 16º volume. Mas há uma muito apreciada edição em inglês da monumental obra, em 40 volumes (1899-1953).

Pode ser considerado o Papa de um Mundo Moderno. Pois na sua reputada Encíclica “Rerum Novarum”, publicada em 1891, foi o primeiro chefe da Igreja Católica a abordar questões de desigualdade social e justiça social, tendo revelado uma grande preocupação com os direitos e deveres decorrentes do capital e do trabalho, quando separou a riqueza e o proletariado.

Argumentou, ao separar o capital e o trabalho, que tanto o capitalismo como o socialismo são falhos. E criticou duramente a falta de princípios éticos e valores morais na sociedade laicizada de seu tempo, que considerava uma das grandes causas dos problemas sociais. Sempre ponderado, era a favor da propriedade particular, por ser de direito natural, e então condenou os socialistas, que “instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem” (in “Rerum Novarum”, tópico 3). Além disso, propôs que decisões políticas e sociais devem ser tomadas em nível local; e não por uma autoridade central. 

texto completo da “Rerum Novarum”, na publicação da Libreria Editrice Vaticana, constitui uma lição de democracia para governantes, segundo a Igreja. O título do tópico 19 da Encíclica é enfático: “O Governo é para os governados e não vice-versa” > https://www.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html> .

Papa Leão XIV, eleito nesse 8 de maio, terá condições de pelo menos seguir alguns passos do, já na sua época, moderníssimo, preclaro e socializante Leão XIII?!

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