O Enem, também conhecido como Exame Nacional do Ensino Médio, foi instituído em 1998, no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, na gestão do ministro da Educação Paulo Renato Sousa. Atualmente, é uma grande prova de admissão à educação superior, mas seu objetivo inicial era avaliar a qualidade do ensino médio no país. Podemos dizer que foi a primeira iniciativa de avaliação geral do sistema de ensino implantado no Brasil.
O exame assumiu a importância de um vestibular já na sua segunda edição, em 1999, quando foi utilizado como modalidade de acesso alternativa ao vestibular em 93 instituições de ensino superior.
A prova do Enem objetiva avaliar conhecimentos em Filosofia, ciências humanas (História, Geografia e Sociologia), ciências da natureza (Biologia, Física e Química), Matemática, Língua e Literatura Portuguesas, Língua Estrangeira (Espanhol ou Inglês), Artes, Educação Física e Tecnologias da Informação e Comunicação. Conta, além disso, com uma prova de redação, que objetiva verificar a capacidade de exprimir, por escrito, ideias e pontos de vista, devendo o participante discorrer sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política, e, em conclusão, elaborar uma proposta de intervenção social para o problema apresentado no desenvolvimento do texto, sempre respeitando os direitos humanos. O participante deve demonstrar habilidade dissertativa e argumentativa.
A prova é realizada em todo o país, de forma unificada e simultânea, atualmente no mês de novembro, em dois domingos consecutivos, desde 2017, através do Enem Impresso, uma prova em versão escrita contendo 180 questões objetivas de múltipla escolha com cinco alternativas (de A a E) e apenas uma correta. São 45 questões para cada área do conhecimento, mais a redação. No dia do exame, cadernos são entregues aos participantes junto com os cartões-resposta.
Havia o Enem Digital, uma prova realizada através de computador, via internet, em local definido no momento da inscrição, mas, em 2023, não deram continuidade a essa modalidade de prova, tendo em vista alegação de altos custos para realização da prova pela internet, segundo informa o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, autarquia federal vinculada ao Ministério da Educação do Brasil, responsável pela aplicação do Enem em nosso país.
Não há dúvida de que o Enem se transformou na grande porta de acesso ao ensino superior em nosso país. Se, na segunda edição, em 1999, contou com 346.819 inscritos, já em 2001, dois anos após, quando as inscrições passaram a ser realizadas pela internet, quadruplicou o número de inscritos, chegando a 1.624.131 em 277 municípios brasileiros.
Mas a credibilidade do Enem, que já teve 8.681.686 inscritos, em 2016, segundo a página do INEP, vem caindo ano após ano, em virtude de fatos e irregularidades que depõem contra a lisura do exame, embora os organizadores do certame tenham procurado justificar naturais falhas humanas na realização do grande vestibular nacional, e, já agora, o Senhor Ministro da Educação tenha minimizado os problemas havidos na aplicação das provas.
De todo modo, as irregularidades sempre ocorreram e não foram de somenos importância, como o caso do furto de provas e a divulgação do gabarito com erros, em 2009. Houve erros nos cadernos de provas, em 2010; e também a denúncia da falta de transparência na correção das provas (2011). Diversas foram as divergências na correção da prova de redação, em 2012. Destoava do bom critério o que ocorreu em 2018, quando houve inserção de questões de teor ideológico nas provas; e, já em 2019, incontestável a ocorrência de fraudes no vazamento do tema da prova de redação e o vazamento da prova do segundo dia. Em 2020, participantes foram barrados nos locais de prova devido ter sido atingida a capacidade máxima para entrada nas salas destinadas ao exame. Nesse mesmo ano, mais erros na preparação das questões da prova. Em 2021, foram apontadas falhas na divulgação do calendário de aplicação das provas.
Como se não bastasse, agora, em 2023, há denúncias quanto ao vazamento completo das provas de linguagens, ciências humanas, e também da prova de redação, segundo consta de matéria do jornal “O Globo”, edição de 05.11.2023, o que vem demonstrar que os casos de irregularidades não resultam de meras falhas humanas.
Os organizadores do Enem precisam, em face do histórico negativo quanto às irregularidades e desorganização do grande exame nacional, dar uma resposta com mais profissionalismo, e que possa gozar de plausibilidade, para demonstrar que o grande vestibular nacional, atualmente considerado o segundo maior do mundo, merece a devida credibilidade.
Na China, o Gaokao, o chamado Enem chinês, é o mais importante vestibular para ingresso no curso superior. Aplicado desde 1952, confere a oportunidade de acesso a cerca de duas mil universidades públicas chinesas. Cerca de 10 milhões de estudantes fazem, anualmente, o Gaokao, considerado o vestibular mais difícil do mundo, não apenas em virtude da qualidade do exame e fiscalização reforçada exercida para evitar burlas e fraudes, mas, ainda, porque vigora, ali, uma regra rígida: o estudante chinês só pode realizar o Gaokao uma vez na vida, enquanto cursa o Ensino Médio.
O governo chinês sabe que é de fundamental importância garantir a todos uma educação básica de qualidade e que precisa valorizar o seu estudante de grau médio. Assim, no período de realização do grande exame, o estudante chinês conta com o respeito e a colaboração de toda a população: desde a preparação até o dia da prova, é exigido silêncio nos arredores para que os alunos possam se concentrar. Por isso, dentre as medidas tomadas pelas autoridades chinesas para viabilizar e valorizar o seu grande vestibular, as ruas são interditadas em um raio de 3 quilômetros dos locais de aplicação da prova, com intuito de evitar movimentação e barulhos.
No Brasil, infelizmente, de chamar atenção, além de tudo, que, nessa edição do Enem 2023, há uma grave acusação na escolha do tema da redação, intitulado “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil“.
O tema escolhido pela Comissão de Especialistas de Redação, ao que tudo indica, além de carregar o propósito de dificultar a compreensão do assunto, visto que o termo “cuidado” tem um sentido bastante abrangente (cuidado com quê?), podendo significar cuidados com os filhos e com os pais, além de cuidados nas atividades domésticas e de trabalho profissional, por exemplo, em hospitais e no trato com idosos, e até cuidados numa atividade social não remunerada, sem dúvida é mal redigido, deixando dúvidas quanto ao seu sentido e conteúdo.
Com efeito, esse tema da redação do Enem 2023, proposto sem a devida clareza, vem demonstrar uma singular inaptidão da Comissão de Especialistas de Redação para tratar de um assunto do mundo contemporâneo com a necessária especificidade. Portanto, aqueles que defendem uma desmedida liberdade da Comissão de Redação na escolha do tema da redação, esquecem de que o enunciado temático deve ser vazado em linguagem clara, precisa e objetiva, sem deixar dúvidas, e assim desconhecem que a clareza na escolha do tema é que revela o bom critério.
O tema proposto no exame do Enem, que devia timbrar pela clareza, consegue simplesmente confundir e até obscurecer a questão temática a ser interpretada. Provavelmente deixou atônitos muitos dos participantes do Enem, trazendo, além do mais, grande aflição à maioria daqueles que se submeteram à indigesta e abstrusa proposta temática da prova de redação.
Os professores responsáveis pela escolha do tema da redação revelam uma inconcebível despreocupação ou indiferença com a clareza da proposta apresentada na prova que avalia a capacidade argumentativa do participante no mais concorrido certame para ingresso no ensino superior do país. Talvez imaginem que o exame do Enem deva ser encarado como o enigma da Esfinge, na Grécia Antiga: “decifra-me ou te devoro”.
