O que podemos ser

Costa Assunção, escritor e advogado.

1 de janeiro de 2021

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Costa Assunção, escritor e advogado.
Costa Assunção, escritor e advogado.

“Para ganhar um Ano Novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre”.

(ANDRADE, Carlos Drumond de. Receita de Ano 

Novo, in “Discurso de Primavera e Algumas 

Sombras”. POESIA COMPLETA. Rio de Janeiro:

Editora Nova Aguilar, 2002, págs. 868-869).

Que você possa virar a página do Ano Velho na certeza de que fez o melhor para tê-lo vivido e que ele lhe tenha acrescentado mais experiência.

Que o Ano Novo seja o portador de um tempo de serenidade e muito conforto espiritual, através do qual poderá compreender que o melhor de nossas vidas é gozar de boa saúde, nunca se entregar ao ócio e acreditar que a nossa recompensa não depende de quantas orações dirigimos a uma entidade divina, e sim de uma séria, sensata e firme conduta diária que nos torne dignos da confiança dos nossos semelhantes. 🍀✨

Procure, como ponto de partida, ser justo e leal com você mesmo, e verá que a sua recompensa estará garantida, pois já é uma grande virtude ter a consciência do que somos e conhecer nossos limites.

Mas, fazer orações e não saber refletir sobre nossos atos, ou buscar uma recompensa, se não lutamos, ou não sabemos lutar, para merecê-la, só nos tornará infelizes e angustiados, incapazes de resolver nossos conflitos e dilemas.

Pouco adianta conhecer, ou ler e recitar, de cor, textos bíblicos, ou declarar que somos fiéis à doutrina cristã, ou que nos importamos com o semelhante e desejamos o bem de todos, se, na prática, nos comportamos como os fariseus verberados por Jesus de Nazaré (Bíblia Sagrada, Livro de Mateus, 23:2-7), ou se somos incapazes de fazer por nós mesmos, pelo verdadeiro prazer de fazer, e com a única intenção de fazer o melhor, sem a pretensão de merecer um lugar no que dizem ser o Reino de Deus. 

Que nossas palavras e afirmações sejam de acordo com a nossa conduta, em todos os momentos da nossa vida, sem almejarmos merecimentos, pois bem já dizia o Pe. Antônio Vieira (1608-1697) no extraordinário Sermão da Sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa, no ano de 1655: “Palavras sem obras, são tiro sem bala; atroam, mas não ferem” (VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões – Vol. I. Porto, Lelllo & Irmão – Editores, 1993, pág. 82).

Acreditar em nós mesmos, agindo sempre com firmeza e responsabilidade, não transferindo para uma entidade divina a tarefa de nos proporcionar algo que devemos lutar para merecer e obter, deve ser o lema para todos que almejam viver sem experimentar angústias e aflições.

No mais, cultivar a prudência em tudo o que fizermos parece estar de acordo com uma vida digna e saudável, e assim poderemos apostar que nossos atos merecerão o respeito dos outros; e o crédito será nosso. Não é por acaso que Voltaire, o mais espirituoso dos filósofos e grande defensor das liberdades individuais, além de intransigente opositor da intolerância religiosa, dizia: “A prudência é o deus que só devemos implorar” (Voltaire. Dicionário Filosófico. Tradução de Ciro Mioranza e Antônio Geraldo da Silva. São Paulo: Editora Escala, 2008, pág. 206).

Isso é tudo que podemos ser, pois somos limitados por uma razão que restringe nossos conhecimentos a respeito da vida, do mundo e do universo, e isso torna limitado o nosso campo de atuação e compreensão das coisas. Temos então que aceitar e confessar a fraqueza do nosso conhecimento na compreensão da grandeza da Natureza, sempre considerando que nossa existência é limitada e jamais poderemos conhecer o infinito.

Tentar compreender o que ultrapassa a barreira da nossa finita razão esbarra em uma grande, imensa, atroz e inevitável dúvida que acompanha nossas vidas e dá lugar a duas indagações que nunca serão adequadamente respondidas e têm atormentado o homem através dos tempos: como explicar a fonte do bem e do mal? e, por fim, Deus afinal existe? Aqui, a prudência determina que não podemos mais prosseguir, a menos que seja o nosso propósito mergulhar em infindáveis discussões filosóficas. 

Ter certeza, nessa matéria, não é uma escolha pacífica, tampouco recomendável. Aceitar as metáforas bíblicas e o conceito de Deus proposto por Blaise Pascal (1623-1662), ou preferir o racionalismo de Baruch Spinoza (1632-1677), ou o criticismo e a dialética transcendental de Immanuel Kant (1724-1804), ou, ainda, ficar com o liberalismo e a brilhante irreverência de Voltaire (1694-1778), é escolha muito pessoal e depende da cultura e sentimentos que orientam a visão de mundo de cada um.

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