Existe um novo conceito do que é o luxo supremo na vida, a partir de uma visão transformadora cuja essência se baseia em valores espirituais.
Creio que o novo milênio aponta para uma nova consciência do mundo, a que todos devemos aderir, se quisermos dar um significado de dignidade às nossas vidas. Trata-se de uma mudança de valores na busca por um mundo melhor, uma busca por um mundo bem qualificado, do ponto de vista espiritual, quando todos devem recusar-se a viver em um mundo robotizado, este, no qual todos fazem as mesmas coisas, seguem a moda do ser e do ter, e, assim, praticamente ninguém tem um valor pessoal, próprio, somente seu.
Então, o que significa luxo no mundo contemporâneo?
O novo luxo não é apenas ter saúde; mas sim ter liberdade; dispor de tempo para ‘ser’ e ‘fazer’. E, se possível, ter espaço, um pedacinho que seja desse planeta atulhado de coisas desconexas, às vezes incompreensíveis, para cultivo de hortas orgânicas e até de uma apicultura de lazer, além da criação de animais livres, sempre com foco ambiental nas reservas de água limpa, rios e mares limpos, matas nativas, florestas preservadas e biomas naturais.
Bom seria que todos pudessem conhecer as ideias naturistas de pensadores como Henry David Thoreau (1817-1862), não exatamente para aplicá-las no cotidiano, mas para valorizar muito mais as riquezas naturais do nosso planeta.
E quem pode se dar a esse luxo? Creio que esse luxo é para aqueles que podem cuidar da sua saúde física, mental, emocional, psíquica e espiritual.
Terá, sem dúvida, a primazia desse luxo quem puder ter a liberdade de ser o que é, sem se preocupar com a opinião de ninguém.
A consciência de que todo indivíduo é um só e de que a pluralidade deve respeitar a individualidade, precisa ser erigida a um patamar de valor humanístico, se quisermos alcançar o luxo da nossa existência, o ideal supremo de vida. Afinal, toda pluralidade constitui um desdobramento da individualidade e as grandes invenções da humanidade foram obra do indivíduo trabalhando em ambiente solitário, às vezes enfrentando imensas dificuldades.
Esse luxo pertencerá a quem puder dispor de tempo para fazer o que gosta e gostar do que faz. Dirão que isto é impossível, mas todos devemos perseguir esse ideal, para atingir um patamar de dignidade em nossas vidas. Todos devem buscar o melhor e fazer o melhor que puderem, se quiserem atingir um estágio bem avaliado de dignidade. Todos devem tentar o melhor, procurando ser úteis nas pequenas atividades ou nas empresas mais arrojadas. Direcionar suas ações para o bem comum, para a coletividade; estar próximos dos que precisam e não podem fazer sozinhos; ter um olhar de compreensão para os que erram e estão dispostos a mudarem de vida; ter compaixão pelos que sofrem e precisam de ajuda; acalmar os que gritam e não sabem calar porque não puderam aprender, tudo isso, todos esses atos, somente os dignos, os talhados a viverem o luxo do tempo, serão capazes de praticar.
Será o luxo dos que puderem desfrutar de tempo para pensar o melhor e se dedicar a uma vida natural, podendo assim observar a beleza da natureza ao seu redor e valorizar as coisas perenes; daqueles que puderem criar e recriar a beleza das coisas; daqueles que puderem descobrir e redescobrir o mundo.
Feliz será aquele que puder dançar sozinho, convencido de que tem o seu valor pessoal e pode contribuir para viver em um mundo agradável e justo; que puder acordar e apreciar o nascer do dia; que puder sentir o prazer de observar, demoradamente, um pôr de sol.
Poderá cuidar de bichos, se levar jeito e dispuser de tempo. Poderá plantar árvores, cuidar de jardim. Poderá fazer escolhas coerentes no vasto mundo a que pertence.
Terão esse luxo, ainda, aqueles que puderem, num dia gostoso, em lugar aconchegante, tomar um chá, um café ou um bom vinho em um fim de tarde, e ainda ler um livro que lhes mostre a maravilha de viver e o sentido da vida.
Sem dúvida, um luxo puro é, incontestavelmente, amar, com olhos, prazer e doçura. Saber amar é muito prazeroso e tem a vantagem de adoçar a vida.
Mas o luxo maior, que diz com a honestidade de caráter e a retidão da conduta do indivíduo, é aprender que todos podemos e precisamos colocar os deveres antes dos direitos. Sempre devemos estar atentos aos deveres e, assim, teremos certeza de que todos os direitos serão sagrados e nunca contestáveis. O dever consagrado à família, célula-mãe da sociedade, parece ser o dever supremo, pois através do respeito que tivermos pelos nossos pais, que nos criaram e às vezes encontraram dificuldades para manter o nosso sustento, e o cuidado que devotarmos aos nossos filhos, que são a continuidade das nossas vidas, podemos almejar todas as benemerências.
Os deveres, nunca esquecer, devem ser exercitados a todo momento, faça chuva ou faça sol; seu descumprimento nos coloca em desvantagem com o próximo e traz complicações. Muitos deles fazem parte da rotina da vida, alguns podem pesar um pouco mais; contudo, estabelecer horários e uma agenda organizada para cuidar deles, decerto trará o conforto da missão cumprida e a certeza de que estamos habilitados a seguir firme na busca do nosso ideal.
Já Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) dizia: “Negócios públicos ou privados, civis ou domésticos, ações particulares ou transações, nada em nossa vida esquiva-se ao dever; observá-lo é virtuoso; negligenciá-lo, desonra” (CÍCERO, Marco Túlio. Dos Deveres. São Paulo: Martin Claret, 2011, p. 32.).
Porém é certo que merecer o novo luxo depende de uma indeclinável paz de espírito, de uma consciência limpa e tranquila dos próprios atos, ancorada na preocupação de sempre fazer o melhor para recebermos o bônus das nossas ações. Só assim é possível meditar e sentir a felicidade de viver, que pode brotar e nascer em cada um de nós, não importando o que aconteça lá fora. E poderemos pelo menos sonhar com a felicidade, se tivermos paz.
Não carregar o peso de sentimentos ruins e pensamentos negativos; mas deixar que eles passem como passam as nuvens escuras pelo céu, esse deve ser um lema constante para quem deseja experimentar esse luxo da contemporaneidade.
Ser gentil com pessoas que não se conhece, com os que sofrem dos males da alma, com empregados, funcionários e subalternos, é essencial para merecermos esse luxo da nossa era.
Respeitar o outro, independentemente de sua posição social, raça, cor ou credo; respeitar o ser humano, como regra; e procurar entender (não precisa aceitar) quem pensa diferente ou aquele que é estranho; e ser capaz de conscientizar-se de que a violência só gera violência, tudo isto é importante para alcançarmos o luxo da era.
Admitir suas fraquezas e até se divertir com seus defeitos, esses que todos carregamos, pode ser muito útil na busca do luxo do tempo, pois todos temos falhas e fazemos ou dizemos algo infeliz ou bobo. Nesse caso, o importante é não permanecer no erro, é saber se desculpar ou até perdoar, se for possível.
Saber libertar-se de erros, falhas e até de atitudes erradas e impensadas, é de grande importância para que todos aprendam a crescer.
Viverá muito bem quem souber superar falhas, erros, culpas, desatinos e desenganos.
Credenciar-se para o novo luxo é viver com responsabilidade e respeitabilidade; é aprender e reaprender a viver. É evoluir.
Merecerá o novo luxo quem fizer o uso adequado do CONHECIMENTO, que não se confunde com a cultura obtida em bancos escolares ou fruto de um aprendizado como autodidata; mas diz respeito ao aprendizado das coisas básicas e essenciais da vida, acima da cultura formal, que todos nós podemos alcançar, se nos fixarmos em traçar uma linha de conduta com ênfase na responsabilidade e respeitabilidade.
Mas somente uma vontade deliberada, objetiva e firme é capaz de tolerar a dor e o sofrimento, que constituem a essência da vida, segundo Schopenhauer (1788-1860), que asseverava: “…a vida é tão cheia de tormentos e atribulações que ou se os supera por pensamentos equilibrados ou se tem de abandoná-la” (…) “…a privação e o sofrimento não se originam imediata e necessariamente de não ter; mas antes de querer ter e não ter” (…) “o não ter se torna privação e provoca dor” (SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação – 1º tomo. 2ª edição revista. São Paulo: Editora Unesp, 2015, p.103).
Diz ainda o filósofo alemão que: “…entre querer e conseguir, flui sem cessar toda a vida humana” (ob. cit., p.363) e que vivemos em um “…mundo ilimitado, cheio de sofrimento em toda parte, no passado infinito, no futuro infinito…” (ob. cit., p. 409). Assim, somente o equilíbrio de nossas ações poderá nos guiar na obtenção das coisas básicas e essenciais.
Creio que não é preciso sofrer para ter; mas é preciso ‘ser’ para merecermos possuir.
O Natal deve simbolizar esperança em dias melhores; mas o Ano Novo deve ser preenchido por conquistas espirituais, pois através delas podemos conquistar o mundo.
