Ser feliz

Costa Assunção, escritor e advogado.

18 de abril de 2025

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Costa Assunção, escritor e advogado.
Costa Assunção, escritor e advogado.

Creio ter sido Sêneca (04 a.C. – 65 d.C.), escritor e filósofo romano que pregava o estoicismo, doutrina a que prestou irrestrita fidelidade, até no momento em que aceitou a penosa condenação de morte imposta por Nero, aquele que melhor discorreu sobre o tema da felicidade ao dizer que ela “consiste em uma alma livre, sem medo e constante, inacessível ao temor e à ganância, para quem o único bem é a dignidade e o único mal é a desonestidade, sendo todo o restante um aglomerado de coisas que não retiram ou acrescentam nada à felicidade da vida” (in “Da Felicidade”, cap. IV).

 
Mas o conceito de felicidade de Sêneca está fundamentado na ética, tem base socrática, e creio que a maioria de todos nós, no mundo dominado pelos prazeres do corpo e governado por bens materiais, provavelmente jamais estará preparada para seguir essa filosofia de vida.

 
Devemos entender, contudo, que o filósofo latino, ao formular seu conceito de felicidade, visou mostrar como evitar ou combater a dor e o sofrimento humanos

 
Sua filosofia nunca será adotada pela maioria, podemos concluir; porém alcança aqueles poucos que pretendem viver virtuosamente, e também serve de refrigério para aqueles que cometeram muitos erros e desejam se transformar em indivíduos portadores de qualidades espirituais e morais.

 
Na data histórica em que o mundo cristão celebra a morte de um Deus humanizado tendo como pano de fundo a sua ressureição, podermos lembrar do estoicismo de Sêneca na abordagem da felicidade, como necessidade de traçar um roteiro em busca dessa mesma felicidade, é o que muitos desejam. Mas o anseio de se tornar feliz, para o grande pensador estoico, só seria possível na medida em que “o fraco corpo” humano pudesse dominar o prazer exercendo um domínio absoluto sobre a dor e o sofrimento.

 
Suponho que, se o conceito de felicidade abraçado pelo estoicismo encontra poucos adeptos, praticamente todos, em contrapartida, irão aceitar a perfeita definição de ser feliz do citado pensador romano: “Feliz é aquele que, satisfeito com a sua condição, desfruta dela” (in “Da Felicidade”, cap. VI).

 
Não creio haver definição mais bem elaborada sobre ser feliz. Serve  a todos e satisfaz todas as hipóteses. 

 
Nem Immanuel Kant (1724-1804), o grande filósofo do Criticismo e sistematizador da Moral, fez uma síntese tão perfeita sobre o conceito ou definição de felicidade.

 
Sêneca advertia que sempre seria possível conciliar o prazer com a virtude; mas defendia a continência nos prazeres da carne e materiais, e exaltava os prazeres da alma. Acreditava, ainda, que todos seriam felizes se deixassem a razão conduzir suas vidas. Aqui, entretanto, é necessário compreender que uma grande parte das pessoas não faz bom uso da razão, daí necessitarem do conselho dos pais, de amigos ou de profissionais da psicologia e/ou psiquiatria.

 
busca da felicidade foi explorada, modernamente, de maneira magistral, por André Comte-Sponville, um filósofo de grande sensibilidade que veio demonstrar a capacidade de sermos muito sensíveis e preocupados com o outro, o próximo, mesmo quando somos considerados ateus.

 
Comte-Sponville nos ensina que ser feliz é saber viver com sabedoria (in “ A Felicidade, Desesperadamente “). Aí está a chave de tudo o que podemos angariar em nossas vidas. Mas como deve ser “viver com sabedoria”? Tentarei voltar a esse tema noutro momento.

 
Por ora, desejo lembrar que, na data em que celebram a morte imposta a Jesus de Nazaré com os olhos postos na sua apregoada ressureição, é cabível tratar da felicidade que todos buscam, não apenas à maneira de Santo Agostinho e outros doutores da Igreja, mas da felicidade sem a capa e orientação religiosas, a felicidade de todos, que será sempre uma busca incessante de todos nós, não importando se temos um credo religioso, ou se uns são agnósticos, spinozistas ou panteístas, ou inconformados com o mundo e seu suposto criador, ou até ateus por falta de melhor opção ou por convicção.

 
Que todos possam ser felizes, ou tenham o direito de buscar uma vida feliz, desde que procurem agir com bons propósitos. 

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