O que é o Xadrez

Costa Assunção, escritor e advogado.

23 de maio de 2025

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Costa Assunção, escritor e advogado.
Costa Assunção, escritor e advogado.

Não há dúvida, o jogo de xadrez é para todos e pode ser praticado à larga por pessoas de todas as classes sociais, independentemente de origem, raça, gênero ou escolha sexual, cor ou idade, não sendo reservado apenas aos indivíduos muito inteligentes ou geniais. Na Rússia, por exemplo, praticamente todas as pessoas jogam xadrez e, ali, o xadrez, que passou a ser conhecido como jogo-ciência, sempre foi praticado como um hobby pelos habitantes da antiga União Soviética; mas tal não significa que os russos são as pessoas mais inteligentes do mundo.

O Google aponta que, em 2021, a Rússia tinha o maior número de grandes mestres do planeta: 240. Vinham, em segundo, os Estados Unidos com 96 GMs. Mas isso também não significou que os 240 grandes mestres russos fossem as pessoas mais inteligentes dentre todos os enxadristas do mundo. E não é  inteligente apenas aquele que joga bem o xadrez. Consta, a propósito, que Albert Einstein (1879-1955), físico teórico alemão e um dos maiores gênios da ciência moderna, não foi um grande jogador de xadrez e, nas poucas ocasiões em que disputou uma partida, em jogo amistoso (ele dizia não dispor de muito tempo), demonstrou não possuir um exuberante talento para o jogo. É sabido que seu nível era de um amador.

Estudos científicos comprovam que saber jogar xadrez não exige que a pessoa seja “brilhante”; mas que tenha a capacidade de pensar de maneira racional, além de poder desenvolver as habilidades próprias do jogo, a partir da abertura e com vistas ao final, como já ensinava José Raúl Capablanca (1888-1942).

Demonstrar suficiente atenção em todas as fases do jogo, aprender quando deve atacar e se defender, ou seja, saber tomar decisões nos momentos oportunos e cruciais, é tudo o que um verdadeiro enxadrista precisa dominar, e não necessita de genialidade e sim de abalizado estudo e boa concentração, conhecimento e virtude que um indivíduo normal pode adquirir, desenvolver e praticar sem que se presuma um iluminado ou gênio.

Grandes enxadristas, como Paul KeresMikhail BotvinnikAlexander Alekhine e até Max Euwe, não atingiram o ápice da carreira senão pela capacidade de trabalho árduo e estudo meticuloso do jogo. Nenhum desses pode ser considerado propriamente um gênio na arte do jogo; nenhum deles foi um menino-prodígio do xadrez, embora não se lhes negue o talento forjado no estudo aprofundado e no ambicioso poder de concentração do jogo. 

Eles foram grandes exemplos de um aprendizado feito ao longo do tempo, focados na meta de obter o melhor resultado, para o que se tornaram grandes obstinados na escolha do melhor lance, o lance exato, o lance vencedor.

Jogar xadrez exige boa capacidade de cálculo e extrema concentração, virtudes que um indivíduo normal pode adquirir através do estudo organizado e metódico do jogo, e desde que seja portador de uma boa dose de serenidade para praticar um xadrez de qualidade e descobrir os caminhos visando o aperfeiçoamento do jogo.

Aprender a pensar no limite da perfeição é a suprema tarefa do jogador de xadrez, que somente o entusiasta do jogo, que não precisa ser um gênio ou menino-prodígio, será capaz de desenvolver. 

Já está comprovado que o jogador, através de um método de estudo eficiente, pode chegar a grande mestre. E, assim, todos podem aprender e jogar bem o xadrez. Pois, atualmente, com o uso de computadores e poderosas ‘engines’ à disposição de jogadores de todos os níveis (destaque para o Stockfish 17.1, a engine mais forte de todos os tempos), ficou mais fácil aprender e jogar em alto nível. 

Vale acentuar que, além dos programas de xadrez que ensinam o jogo e mostram como são desenvolvidas técnicas eficientes para jogar o chamado xadrez superior, os jogadores e diletantes do xadrez dispõem de uma vasta gama de cursos oferecidos na internet, além de professores que podem ser contratados, em qualquer parte do mundo e principalmente nos grandes centros, para dar aulas particulares. 

O estudo técnico-científico do xadrez está disponível em sites especializados, orientados por grandes mestres e em plataformas no mundo inteiro. Podemos citar, dentre as grandes plataformas do jogo, as seguintes: https://www.chess.com/,  https://lichess.org/https://chessbase.com/https://chessarena.com/, e o de longa data bastante conhecido https://www.chessclub.com/. Temos muitas outras, e mais os clubes e federações de xadrez, no mundo inteiro. No Brasil, por exemplo, a Confederação Brasileira de Xadrez – CBX >  https://www.cbx.org.br/  >  tem a responsabilidade de gerir o xadrez oficial praticado no país. 

O xadrez, que na década de 1970, era um jogo mais para intelectuais e ainda se encontrava elitizado, ganhou destaque, contemporaneamente, como um jogo popular em praticamente todas as partes, com milhões de praticantes. 

Embora Edward Winter, jornalista, historiador, arquivista e jogador de xadrez britânico, que escreve sobre xadrez no site da “ChessBase”, faça a advertência de que “Ninguém sabe, nem sequer de forma aproximada, quantas pessoas jogam xadrez, e ninguém deve fingir que sabe“, é preciso considerar que faz mais de uma década estimou-se haver cerca de 600 milhões de jogadores de xadrez no mundo. Essa estimativa, feita pela FIDE ainda em 2012, que dizem ter extrapolado o número real de jogadores na época, já foi ultrapassada, e há quem aponte haver hoje cerca de 1 bilhão de jogadores no planeta. Seja como for, artigo publicado em 28 de dezembro de 2017, no site da Chess.com, informa que, na data da divulgação do artigo, essa vitoriosa plataforma do enxadrismo mundial, atualmente a maior do mundo, já havia chegado a mais de 20 milhões de membros espalhados no planeta > https://www.chess.com/pt-BR/article/view/quantos-jogadores-de-xadrez-ha-no-mundo-1> .

Tornou-se uma realidade inquestionável que o xadrez evoluiu de maneira surpreendente, tanto teórica como tecnicamente, nos últimos 50 anos, a partir da utilização de computadores de alta performance que superam os melhores jogadores do mundo em vários aspectos. Antes, só era possível aprender através de livros especializados, como a “Teoria Cientifica del Ajedrez”, de Ricardo Reti (vide tradução de Julio Ganzo, Madrid, Ed. Ricardo Aguilera, 1972), o celebrado “Piense Como Um Gran Maestro”, de Alexander Kotov (vide tradução de Miguel Angel Nepomuceno, Madrid, Ed. Ricardo Aguilera, 1979), o ”Tratado de Ajedrez Superior”, de Y. B. Estrin (vide tradução de J. M. Lopez de Castro, Barcelona, Ed. Martinez Roca, 1984), ou o muito prestigiado “Tratado General de Ajedrez”, de Roberto G. Grau, um clássico da literatura enxadrística, várias vezes reeditado, caso da edição de Buenos Aires, da Ed. Sopena Argentina, 4 tomos, 1982. 

Mas há os títulos específicos sobre aberturas, meio-jogo e finais, em livros bem escritos por Ludek Pachman (também escritor de livros clássicos sobre tática e estratégia enxadrística), Max EuweP. A. RomanowskyReuben FineMiguel Czerniak, Paul KeresW. SmyslovG. LowenfischY. Averbakn e tantos outros que saíram das mãos dos teóricos das três fases do jogo e que também trataram dos fundamentos do xadrez.

Sobre os fundamentos do xadrez, ainda hoje é importante destacar a grande contribuição de José Raúl Capablanca, o segundo menino-prodígio do xadrez (o primeiro foi Paul Morphy, segundo Pablo Moran, in “Los Niños Prodigio del Ajedrez”, Barcelona, Ed. Martinez Roca, 1973), ao escrever a prestimosa obra “Chess Fundamentals” (1921), a qual mereceu uma edição especial de aniversário ao completar 100 anos, em 2021, em livro de publicação independente preparado por Martin B. Justesen, um jogador de xadrez com classificação FIDE, livro que vem sendo comercializado com boa vendagem pela Amazon.com  > https://www.amazon.com.br/Chess-Fundamentals-Jos%C3%A9-Ra%C3%BAl-Capablanca/dp/B09DF29DYV/ref=asc_df_B09DF29DYV?mcid=7776c0d5dc07352596fb16106c0f63e9&tag=googleshopp00-20&linkCode=df0&hvadid=709883381644&hvpos=&hvnetw=g&hvrand=14594964817630511988&hvpone=&hvptwo=&hvqmt=&hvdev=c&hvdvcmdl=&hvlocint=&hvlocphy=1001629&hvtargid=pla-1415890653249&psc=1&language=pt_BR&gad_source=1#detailBullets_feature_div >.

Necessária a referência a algumas obras clássicas publicadas em livros, as quais foram, e ainda são, de grande importância para o estudo e aprimoramento do xadrez. Mas vivemos na era do xadrez virtual e não resta dúvida que, no mundo contemporâneo, dadas as facilidades da internet, o xadrez tornou-se acessível a todos aqueles que buscam conhecer, jogar e aperfeiçoar-se no jogo. Inegável que o aprendizado do xadrez deixou de ser privilégio dos grandes e tradicionais centros, como a Rússia e antigas repúblicas soviéticas, Estados Unidos e países que se notabilizaram como centros enxadrísticos, casos da Alemanha, Hungria, França, Azerbaijão, Uzbequistão, Armênia, Ucrânia, Noruega, Sérvia, Inglaterra, Espanha, Holanda, Geórgia, Polônia, Israel, Turquia, Irã, Romênia, República Tcheca, Eslovênia, Croácia, Grécia, Bulgária, Dinamarca, Argentina e Áustria, e chegou a praticamente todos os continentes, experimentando um notável crescimento, notadamente nos Estados UnidosÍndia e China, países que estão no topo da lista dos dez mais desenvolvidos no xadrez

O xadrez, hodiernamente, é praticado em todas as partes do mundo, ainda que, em alguns dos países africanos (África do Sul, Marrocos, Argélia, Zâmbia, Tunísia etc.), esteja na fase de desenvolvimento de uma técnica mais apurada e, noutros, o processo ainda seja um tanto lento (Mali, Chade, Ruanda, Níger etc.). Na Oceania, o processo ainda é embrionário (Vanuatu, Ilhas Salomão, Tonga etc.), assim como nos pequenos países asiáticos (Timor-Leste etc.). Embrionário também no pequeno país São Cristovão e Névis, situado nas Caraíbas, localizado entre as ilhas de Barlavento, o menor Estado soberano das Américas, com uma população de 54.821 habitantes, segundo estimativa de 2016.

International Chess Federation – FIDE, no seu site oficial, relaciona 201 países ao redor do planeta que desenvolveram a prática do xadrez, e, de acordo com o grau de desenvolvimento do jogo e resultados alcançados nas competições, estabeleceu o rating de cada um deles. Notar que o maior rating é dos Estados Unidos, 2730; o menor é do Timor-Leste, 1400, que, por sua vez, empata com Tonga e Ilhas Salomão, países da Oceania > https://ratings.fide.com/top_federations.phtml>. 

Brasil, segundo a FIDE, tem 2513 de rating. O nosso país conta atualmente com 15 (quinze) grandes mestres, ostentando o 33º lugar no ranking das federações, o que revela o bom nível e evolução do xadrez nacional, visto que o conhecimento técnico do jogo é extremamente alto e estamos três pontos abaixo da Suécia (32º, rating de 2516), um país europeu que goza de boa reputação no mundo enxadrístico; e alguns pontos abaixo da Geórgia (29º), uma potência enxadrística da antiga União Soviética; e também um pouco abaixo da Argentina (28º), que sempre foi uma grande potência do xadrez sul-americano.

Esse é o xadrez no mundo contemporâneo, e ninguém duvida que o jogo sempre influenciou tanto a cultura quanto a arte no mundo ocidental e oriental, tendo profundas conexões com outros campos do conhecimento humano como a Matemática, a Ciência da Computação e a Psicologia. Reuben Fine (1914-1993), psicólogo e um dos maiores enxadristas da história, no seu livro “Psicologia del jugador de Ajedrez” (tradução de Ignacio Gaos, Barcelona, Ed. Martinez Roca, 1974), chegou a destacar, já no século XX, a grande influência do fator psicológico no jogador de xadrez.

Os avanços do jogo, reconhecidos por todos os especialistas, são indiscutíveis. E as possibilidades e condições para um jogador atingir a posição de grande mestre, que antes exigia anos de prática, esforço e dedicação, foram facilitadas pelo estudo através do uso de excelentes programas de xadrez e da aprendizagem confiada a uma competente gama de professores de xadrez que dão aulas na internet. 

Em 1950, quando a FIDE criou a primeira lista de grandes mestres, só havia 27 (vinte e sete) deles; mas atualmente são mais de 1.850. 

Nigel Short, 59 anos, grande mestre que já esteve na lista dos cinco melhores do mundo e chegou a disputar o título de campeão do mundo contra Garry Kasparov pela PCA (Professional Chess Association), tendo vencido o ex-campeão mundial Anatoly Karpov para chegar até a disputa do título na PCA, surpreendeu ao declarar recentemente: “There are too many grandmasters” (“Há grandes mestres demais”). Ele, que é diretor de Desenvolvimento do Xadrez na FIDE, disse mais: “Chamar-me de grande mestre não acrescenta nada. São dois por centavo.” >  https://www.nytimes.com/2024/06/24/crosswords/chess-players-grandmaster.html>. Short comparou o tempo em que ainda era jogador júnior em ascensão, na década de 1970 (havia apenas cerca de 100 GMs no mundo), com os dias atuais, em que há um altíssimo número de grandes mestres.

Evidente que o xadrez exige estudo, técnica e arte, e, necessariamente, apenas indivíduos dotados de um bom conhecimento do jogo e técnica apurada, capazes de manter notável equilíbrio e concentração durante os desafios, serão vitoriosos, não sendo indicado para indivíduos muito inteligentes porém ansiosos e de baixa concentração; e tampouco pode ser praticado com sucesso por indivíduos com determinados problemas de saúde. 

O grande campeão mundial Mikhail Tal sofreu as consequências por ter uma saúde debilitada; e outro grande campeão, Alexander Alekhine, perdeu um match pelo campeonato mundial porque, naquele momento, passava por sérios problemas em face do alcoolismo. Temos, numa outra vertente, a psiquiátrica, os males causados a Bobby Fischer (1943-2008), cuja paranoia, isolamento social e crenças religiosas extremas o prejudicaram em vários momentos da sua carreira, que poderia ter sido ainda mais vitoriosa e brilhante, ele, que tinha uma extraordinária compreensão do jogo e foi o exemplo único de enxadrista genial que, praticamente só, derrotou a escola soviética ao se tornar campeão do mundo em uma época dominada pelos soviéticos, daí muitos o aclamarem como o maior jogador de todos os tempos. 

Fischer, menino-prodígio do xadrez, possuía uma memória prodigiosa; era capaz de memorizar mais de 20 partidas consecutivas de xadrez relâmpago. No ano 2000, foi eleito por um seleto grupo de personalidades do xadrez, no principal periódico internacional de xadrez, Sahovski Informator, ”o maior jogador do século XX”, deixando Garry Kasparov em segundo. Além de suas partidas memoráveis, algumas antológicas, Fischer patenteou o sistema de cronometragem com incremento no xadrez, que consiste em adicionar tempo a cada movimento, uma prática que se tornou padrão em torneios de alto nível. 

Mas o gênio norte-americano abandonou muito cedo o xadrez de competição. Tinha 29 anos quando arrebatou o título mundial e, em 1975, desistiu do título. Só reapareceu em 1992, após 20 anos inativo, na revanche contra Spassky, ao qual venceu com certa facilidade. Fischer era “um computador humano”, como disse o próprio Boris Spassky, que o enfrentou no match pelo campeonato mundial. Anatoly Karpov, outro grande campeão, anotou que Fischer elevou o xadrez a um patamar universal.

Mikhail Botvinnik, o maior jogador russo pós-1948 e até a ascensão de Kasparov, além de quatro vezes campeão mundial, comparou Fischer ao genial Paul Morphy

Impossível, entretanto, tentar comparar Magnus Carlsen, considerado por muitos o maior jogador do século XXI, com Bobby Fischer, se considerarmos que o norueguês é um fenomenal produto da era dos computadores, ao passo que o norte-americano não contava com a tecnologia dos grandes programas de xadrez quando se tornou o maior jogador da sua época.

Ciência e arte em complementaridade profunda constituem a essência do xadrez. Estar em boas condições físicas, orgânicas e psicológicas para jogar é de fundamental importância para o enxadrista, além de conditio sine qua non para compreender a magnitude do jogo que pensadores modernos puseram na mesma altura da Ciência e que Goethe, grande escritor, dramaturgo e filósofo alemão, dizia ser “a pedra de toque para a inteligência”.  

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