O Cinilimite é “uma organização sem fins lucrativos, criada em 2020 com o objetivo de promover o cinema de repertório brasileiro a nível global e oferecer serviços de digitalização para filmes e cineastas brasileiros historicamente negligenciados. Sua plataforma online exibe filmes brasileiros recém-traduzidos e coopera com diversas organizações nacionais e internacionais para criar programações gratuitas que vão além do cânone cinematográfico convencional (negritado por mim). As mostras incluem artigos, vídeo-ensaios, entrevistas e eventos especiais ao vivo desenvolvidos em parceria com pesquisadores e críticos de cinema brasileiros”.
Copiei, acima, “ipsis litteris”, o que encontrei no endereço eletrônico > https://cinemateca.org.br/series/mostra-cinelimite/ >. Assim o fiz para poder tratar, ainda que perfunctoriamente, de documentário valioso, restaurado pela Cinelimite, que traz o depoimento autêntico de três viúvas de presos políticos durante a Ditadura Militar brasileira: Eunice, Clarice e Thereza.
Muitos direitistas detestam o livro de Marcelo Rubens Paiva, filho do engenheiro civil e ex-deputado federal Rubens Paiva, eleito pelo PTB, cassado pela Ditadura após o Golpe de 1964, em 10 de abril de1964, através do Ato Institucional n° 1. Esses também detestam o filme ”Ainda Estou Aqui”, adaptação do livro que conta como foi o assassinato de Rubens Paiva, um dos episódios marcantes da aterradora e hedionda Ditadura Militar no país.
Rubens esteve exilado, por 9 (nove) meses, na Iugoslávia e França, mas voltou ao Brasil e trabalhava como engenheiro civil, chegando a ter a propriedade de duas empresas (Geobrás e Paiva Construtora). Mas consta que ajudava perseguidos políticos a sair do país e mantinha contatos com exilados, daí ter sido preso em 20 de janeiro de 1971, no Rio de Janeiro, onde morava com a família, quando sua casa foi invadida por 6 (seis) homens, armados de metralhadoras, que se diziam da Aeronáutica e não apresentaram mandado de prisão (vigorava o AI-5), os quais o levaram para prestar depoimento.
Paiva foi levado para o Quartel do Comando da IIII Zona Aérea, tendo sido acareado com mais duas senhoras, uma das quais a mãe de Almino Afonso (ministro do Trabalho e Emprego de João Goulart, deputado federal e vice-governador de São Paulo, ainda vivo, com 95 anos), que passou mal no ato de acareação e foi socorrida por Rubens Paiva, que, em razão disso, foi duramente golpeado por um oficial militar e atirado ao chão.
Rubens terminou sendo transferido para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, onde foi torturado barbaramente (há testemunhas nesse sentido). Sofreu hemorragia interna, tendo sido testemunha ocular da sua precária condição de saúde o médico do DOI-CODI, o Dr. Amilcar Lobo, que encontrou o prisioneiro nu, deitado numa cela no fundo do corredor, marcado de pancadas e com sinais de hemorragia interna, tendo então aconselhado para que fosse levado ao hospital. Contudo, o oficial que presidia os interrogatórios não deu ouvidos e Rubens morreu em decorrência das sessões de tortura, segundo mais tarde declarou o próprio médico.
Rubens Paiva foi brutalmente assassinado!
Sua esposa, Eunice Paiva, também foi presa e permaneceu incomunicável por 12 (doze) dias. Eliana, sua filha de 15 anos, ficou detida por 24 horas, tendo sido deixada na Praça Saens Pena, no bairro da Tijuca, no Rio.
O documentário narra, com riqueza de detalhes, um dos episódios horripilantes e macabros patrocinados pela Ditadura Militar brasileira, que, alegando estar defendendo o Brasil dos comunistas, assassinou e torturou pessoas que não mereciam o fim deplorável, sanguinário, cruel e injusto imposto a elas > https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/historia-hoje/documentario-historico-com-relato-de-eunice-paiva-e-restaurado-46-anos-depois.phtml >.
Se a Ditadura pretendia prender e punir os então chamados anti-revolucionários, assaltantes de bancos e terroristas, que destinasse a esses o devido processo legal previsto nos atos institucionais; mas sem a infame tortura de que se utilizaram para assassinar e fazer desaparecer pessoas (houve inúmeros casos de ocultação de cadáveres, caso do Rubens Paiva) que não mereciam o mesmo tratamento imposto a pessoas pertencentes aos denominados “grupos anti-revolucionários” (sic), que sequestravam, assaltavam bancos e também matavam.
Notar que o AI-5, baixado em 23 de dezembro de 1968, já previa medidas duras contra pessoas que fossem contrárias ao Poder Revolucionário (expressão empregada no corpo do AI-5), que dizia ser responsável pela “ordem democrática” brasileira e pregava, ironicamente, “o respeito à dignidade da pessoa humana” (sic) “no combate à subversão e às ideologias contrárias às tradições de nosso povo, na luta contra a corrupção” (sic, diz o AI-5 em seu enganosamente elaborado segundo considerando).
Tivesse o governo imposto pelos militares procedido observando o respeito e dignidade da pessoa humana, todos aqueles que não vinham agindo atendendo determinações da alcunhada “Revolução Brasileira de 31 de março de 1964”, expressão utilizada no Ato Institucional nº 5, deviam pelo menos submeter-se a uma condenação legalizada pela denominada Revolução de 64, pois já estava em vigor o Ato Institucional nº 5, instrumento legal assinado pelo então presidente A. Costa e Silva, elaborado pelos militares, que já previa duras punições para todos aqueles que fossem “contrários aos ideais e à consolidação do Movimento de março de 1964” (sic). Leiam, a propósito, os artigos 5º, 6º, 7º, 8º, 9º, 10 e 11, do abominável Ato Institucional nº 5, que vigorou até 1º de janeiro de 1979 e foi revogado pela Emenda Constitucional nº 11, promulgada em 13 de outubro de 1978, durante o governo de Ernesto Geisel.
O que se viu no Brasil, sobretudo durante a vigência do AI-5, é que muitos foram os casos em que pessoas ditas “perturbadores da ordem”, ou denominadas de comunistas e contrárias ao regime ditatorial, foram barbaramente torturadas e condenadas à morte, sem que fosse observado o devido respeito à dignidade da pessoa humana. E assim agiam os detentores do Poder, naquele período negro da história político-administrativa do país, sem apresentação de provas cabais, provas robustas, contundentes e irrefutáveis que atendessem princípios humanitários.
Essa foi a Ditadura implantada no Brasil, em 1964. O aludido documentário trata, um pouco, dela. Todos aqueles que não a sentiram na pele têm agora a oportunidade de entendê-la através de depoimentos de algumas de suas vítimas.
